sexta-feira, 1 de abril de 2011

PdC - Abril de 2011



Neste mês celebramos a Páscoa de Cristo que é o supremo e insuperável ato do poder de Deus.Como nos diz o Papa Bento XVI, trata-se de uma realidade tão extraordinária, que se tornainenarrável naquelas suas dimensões que se furtam à nossa capacidade humana de conhecimentoe de averiguação, não deixando também de ser um fato “histórico”, real, testemunhado e documentado.Ao entregar sua vida na plena e confiante fidelidade ao Pai, mais do que em outro momento, Jesus nos fezentender que o verdadeiro amor leva à mais radical renúncia de si para dizer sim a Deus, no pleno cumprimentode sua vontade.


“Seja feita”


Para mergulharmos o mais profundamente possível no segundo ponto da espiritualidade da unidade,aprofundando neste ano, publicamos o tema de Chiara Lubich sobre “a Vontade de Deus na Sagrada Escritura”apresentado em Mollens, na Suíça, no dia 12 de setembro de 1980.


As “Fazendas” e a “Família da Esperança”, depois de receberem o reconhecimento oficial por parte daIgreja, ocorrido no ano passado, continuam a dar as razões de nossa esperança, revelando uma verdadeira “ressurreição”na vida de tantas pessoas. Para isso propicia-se o acolhimento à Palavra de Deus, o amor a Jesus em cadairmão e a recepção diária da Eucaristia. Deste modo, tantas pessoas descobrem sua verdadeira dignidade de filhose filhas de Deus, libertam-se de tantas dependências e vivem a vida em plenitude. A experiência de Alessandro,que apresentamos abaixo, uma ao lado de tantas outras que poderiam ser apresentadas, comprova a autenticidadedo carisma que Deus doou à Família da Esperança.


Escola gens Ianua Coeli


A casetta Gens Ianua Coeli também vive um momento de verdadeira ressurreição, com a presença, nesteano, de 6 gens, provindos de várias partes do Brasil para esta escola anual. Com o objetivo de partilhar a experiênciainiciada apresentamos, no final dessa edição, uma primeira impressão de cada um dos gens, bem como aresposta encorajadora de padre Alexander responsável do Centro Gens, de Roma.Como sabemos, Jesus é nosso Ideal a ser seguido. E seguir Jesus quer dizer cumprir a vontade do Paide um modo perfeito, como Ele a cumpriu. Tendo derramado em nós o amor, por meio do Espírito Santo (cf.Rm 5, 5), Ele nos introduz na sua própria relação com o Pai, como diz no seu testamento, no relacionamento daTrindade, e deseja que esta comunhão seja vivida nas relações interpessoais. É a realização máxima do homem,da humanidade: a sua “divinização”.




Padre Antonio Capelesso. Editorial Perspectivas de Comunhão 2011.

segunda-feira, 21 de março de 2011

PdC Março de 2011

Como sabemos, a Igreja está passando por um momento particular de sua história bi-milenar. E
isso não apenas porque a sociedade colocou em relevo a chaga da pedofilia em alguns membros do clero, mas porque vivemos um momento de profundas transformações, que atingem toda a sociedade. Alguns chegam a falar de uma “noite escura coletiva” pela qual estamos passando que nos impele a buscar novas luzes para o nosso caminho.

A experiência do exílio

A experiência do povo de Israel, relatada no Antigo Testamento, também apresenta momentos difíceiscomo aquele vivido no exílio, na Babilônia, em que, por alguns momentos, algumas pessoas se questionaram se não foram abandonadas por Deus. Nestes momentos de escuridão a presença dos profetas foi decisiva para alimentar a esperança do povo com a finalidade de perseverar no caminho da aliança e esperar sempre o auxílio que vem de Deus. Os momentos de crise, seja na vida pessoal, como comunitária, sempre precisam ser vistos como um momento de graça. De um lado eles nos questionam e nos levam a abandonar convicções e atitudes que não mais respondem ao momento em que vivemos, mas também nos abrem novos caminhos a percorrer.

A luz do Vaticano II

Também a nós que peregrinamos o momento atual, Deus tem enviado seus mensageiros. Como não ver no Concílio Vaticano II um momento particular de “profecia coletiva”, que nos aponta o caminho verdadeiro para hoje? Também como não faltaram no passado os santos, como verdadeiros faróis a iluminar o caminho a ser percorrido, hoje não nos faltam novos Movimentos eclesiais que dão consistência e concretização às orientações do Vaticano II.

Sempre fiquei impressionado com o final da parábola dos talentos, em que se pede ao que recebeu apenas um talento e que não o fez frutificar, que o entregue ao que já tem dez (cf. Mt 25,14-30). Em sintonia com esta passagem bíblica, nós cristãos que nos sentimos agraciados por “talentos” pessoais ou comunitários, somos particularmente convidados a colocar a luz sobre o candeeiro a fim de que ilumine ao maior número de pessoas.

Revelar a comunhão

O Concílio Vaticano II, nas suas linhas essenciais, apresenta a Igreja como comunhão que tem sua raiz e seu modelo na vida da Santíssima Trindade. Não foi esse modelo que inspirou a formação dos padres mais idosos, como afirmou o teólogo Karl Rhaner, antevendo que a espiritualidade do futuro, em sintonia com o novo modelo de Igreja, seria o da comunhão.

Nesta linha, todos os que nos sentimos agraciados por uma particular experiência de comunhão não podemos enterrar nossos “talentos”, mas fazê-los frutificar a serviço de toda a comunidade cristã e de toda a humanidade.



Padre Antonio Capelesso, Editorial da Revista Perspectivas de Comunhão Março de 2011, Ano XX, nr. 02.

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sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

PdC de Janeiro e Fevereiro de 2011

Partilhamos com alegria a experiência de 120 padres e seminaristas que, de 10 a 14 de janeiro último, na Mariápolis Ginetta, em São Paulo, participaram da Escola nacional. A motivação para esse encontro foi o fato de encontrarem na espiritualidade da unidade uma luz particular para sua vida e ministério. Além de alguns conteúdos aprofundados, relacionados ao tema da vontade de Deus, no final deste número de PdC, apresentamos algumas impressões colhidas por ocasião da conclusão deste encontro.

O sol e seus raios
Um grande painel preparado para essa ocasião, em forma de mosaico, apresentava o sol com os seus raios, imagem escolhida por Chiara Lubich, fundadora do Movimento dos Focolares, para falar da vontade de Deus e seu plano de amor para cada pessoa e toda a humanidade. A frase extraída do Pai nosso: “Seja feita...”, resumia muito bem a temática dessa Escola. A vontade de Deus é a grande possibilidade que temos de responder com amor a todo amor recebido e nos realizar plenamente segundo o desígnio de nosso criador. Para isso é preciso ver em todos os acontecimentos a manifestação direta da vontade de Deus ou ao menos uma sua permissão, sempre para o nosso bem. No passado cheguei a considerar muito otimista a visão de mundo apresentada por Chiara Lubich, enquanto eu via a realidade com lentes mais escuras. Aos poucos fui me convencendo que sua visão era mais evangélica, convidando-nos a ver o mundo como Deus o vê.

O pai misericordioso
A figura do pai misericordioso apresentada por Jesus, seguramente nos impressiona a todos. Em primeirolugar por respeitar a vontade do filho mais novo e repartir com ele sua herança, permitindo que se distancie da casa paterna para uma aventura desvairada. Quem poderia imaginar que somente após esse percurso de distanciamento e de respeito à liberdade do filho o pai o recuperaria e o teria realmente próximo de seu coração?O filho pródigo chega verdadeiramente a conhecer seu pai e seu amor desmedido quando, depois de ter esbanjado seus bens, livremente retorna à casa e é acolhido como filho, não importando seus desmandos. Nós
também, aos poucos, vamos aprendendo que realmente nos aproximamos da porta da casa do Pai somente no despojamento e humildade e não na auto-suficiência do filho mais velho.
Apresentando-nos com essa atitude descobrimos que, da parte de Deus, essa porta sempre aberta, é pura gratuidade e verdadeiro amor.

A vontade de Deus é amor
Neste número de Perspectivas de Comunhão continuamos a aprofundar o 2º tema da Espiritualidade da unidade, que focaliza o chamado a realizar plenamente a vontade de Deus, nossa grande chance de nos tornarmos verdadeiramente pessoas, através de nossa resposta positiva ao amor de Deus que descobrimos pessoalmente.

A criança evangélica
Jesus apresenta a seus discípulos a figura da criança como modelo de confiança plena no amor de Deus. A criança, porque acredita no amor de seus pais, aceita suas orientações com grande facilidade e se sente segura de ser constantemente amparada por eles.
Na medida em que passarmos a ver toda a realidade com o olhar de Deus e nos abandonarmos ao seu amor, realizar a vontade de Deus será o ato mais natural e inteligente que podemos fazer. Isso não será um peso para nós, mas um dever de gratidão a nosso Pai que nos criou e nos guia constantemente para que tudo concorra para o nosso bem.

Padre Antonio Capelesso

quarta-feira, 3 de novembro de 2010

PdC - Novembro 2010




Neste número de Perspectivas de Comunhão, desejamos aprofundar nossa reflexão sobre a encíclica do Papa Bento XVI, Caritas in Veritate. Através da apresentação de alguns trechos deste documento, desejamos destacar a importância do verdadeiro conceito de pessoa humana, fundamental para o verdadeiro desenvolvimento.

O Papa afirma que “hoje a questão social tornou-se radicalmente antropológica, enquanto toca o próprio modo não só de conceber, mas também de manipular a vida” (CV n. 75).

O conceito de pessoa

A origem etimológica da palavra pessoa vem do latim, de resonare, que significa “ressoar”. O termo pessoa inicialmente indicava a máscara teatral utilizada pelos atores, seja para se caracterizar, seja para amplificar a própria voz. A cada máscara correspondia uma voz diferente e, portanto, as vozes não se confundiam entre si.
O conceito de pessoa não está presente no Novo Testamento, mas coloca-se no cenário geral da Aliança, onde o homem é chamado a ser o partner de Deus. Em contato com o mundo grego, esse conceito sofreu a influência de uma visão individualista. O desenvolvimento cristão deste conceito chave se deu principalmente no contexto das controvérsias trinitário-cristológicas, que estavam na origem dos sete primeiros concílios ecumênicos. Tratava-se principalmente de se defender das acusações de politeísmo e de frear as várias heresias cristológicas, que tendiam a negar ora a humanidade, ora a divindade de Cristo. Deste modo, a Igreja afirma que Deus é uma única natureza em três Pessoas. Desta tese emerge o conceito de pessoa como relação entre o Pai, o Filho e o Espírito Santo no interior de Deus e, portanto, relação com os homens.

Acento sobre a relação

A reflexão posterior ao Concílio de Nicéia coloca o acento sobre a “relação”, pela qual a substância
divina (as três Pessoas da Trindade) existe na relação recíproca. Segundo Santo Agostinho, no microcosmo humano encontram-se analogicamente os traços das três Pessoas divinas. Assim, por analogia entre o Criador e a criatura, o termo pessoa é aplicável ao próprio homem. Deste modo podemos entender mais facilmente a afirmação dessa encíclica de que “Deus é o garante do verdadeiro desenvolvimento do homem, já que, tendo-o criado à sua imagem, fundamenta de igual forma sua dignidade transcendente e alimenta seu anseio constitutivo de ‘ser mais’” (CV n. 29). Por isso mesmo, “o primeiro capital a preservar e valorizar é o homem, a pessoa, na sua integridade: com efeito, o homem é o protagonista, o centro e o fim de toda a vida econômico-social” (CV n. 25).

Somos se amamos

Como as Pessoas da Trindade, também nós, seres humanos, somos chamados a sair de nós mesmos para ir ao encontro do outro. Deste modo, quando não somos (fechados em nós mesmos) então somos, na relação de amor.

Padre Antonio Capelesso - Editorial Perspectivas de Comunhão, Ano XIX, Novembro de 2010, nr. 10.

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

PdC - Outubro de 2010




Ao recordarmos que outubro é o mês missionário, logo nos vem à mente o Documento de Aparecida (DAp), que conclama todos os membros da Igreja a partilhar a sua experiência do encontro pessoal com o Senhor, de modo a poder doar a alegria da própria fé que ilumina, com uma nova luz , todos os acontecimentos de nossa vida.
Através deste encontro com o Senhor, descobrimos que somos constantemente acompanhados e amados por Ele, de modo que a certeza de seu amor nos enche de esperança. Este dom espiritual de nosso encontro com Deus ilumina nosso rosto com uma luz muito especial, presente também nos momentos de dor, como aconteceu na vida da jovem Chiara Luce Badano, beatificada no dia 25 de setembro deste ano. Neste sentido, quando nos perguntarem pela razão de nossa paz interior e serenidade, não podemos deixar de transmitir nosso testemunho e a fé que nos anima.

Abertos a todos

Portanto, ninguém pode passar ao nosso lado sem que o olhemos nos olhos, o acolhamos em nosso coração, especialmente se for alguém que ainda não descobriu o sentido de sua vida. Vivemos sim, não apenas uma época de mudanças, mas uma mudança de época, momento em que tantos valores cristãos são questionados, momento em que, sobretudo, os jovens encontram-se facilmente desorientados.
Há poucos dias pudemos acompanhar a viagem do Papa Bento XVI ao Reino Unido, não em busca de aplausos, mas ancorado na certeza da sua missão que é a de confirmar os irmãos no caminho da fé verdadeira. Nós também queremos fazer eco à sua voz e dizer, mais com a vida do que com as palavras que em Cristo descobrimos o verdadeiro significado que plenifica a nossa vida.

A comunhão para a missão

Neste número de Perspectivas de Comunhão teremos ocasião de aprofundar a dimensão missionária de nossa vida cristã, a começar pelo pensamento do Papa que nos dirá que a construção da comunhão eclesial é a chave da missão. Uma carta da fundadora dos Focolares, Chiara Lubich, dirigida à comunidade de Roma no final de junho de 1949 nos fará entender que a presença espiritual de Jesus em meio a seus discípulos (cf. Mt 18,20), é o segredo da autêntica evangelização e transformação social.
Através de um artigo da teóloga Sandra Ferreira Ribeiro, que participou como perita da V Conferência do episcopado Latino Americano, aprofundaremos a realidade da evangelização no Documento de Aparecida.
Para concluir esse número, apresentaremos alguns tópicos deste documento sobre a realidade da missão na vida da Igreja.

Padre Antonio Capelesso

Editorial Perspectivas de Comunhão, outubro de 2010 - Ano XIX nr. 09.

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quarta-feira, 8 de setembro de 2010




A Palavra de Deus é vida de nossa vida. Estamos vivendo o mês de setembro, especialmente dedicado à Palavra de Deus. Em Maria a Palavra de Deus se fez carne. Na medida em que revivermos as suas atitudes de escuta, acolhimento e plena disponibilidade, o Verbo de Deus é gerado em nossos corações, de modo que também nos tornaremos uma espécie de sacrário que leva a presença de Jesus aos irmãos.

Luz para o caminho

Partilho a importância que teve em minha vida, a descoberta da possibilidade de colocar em prática a Palavra de Deus. Em 1969 encontrava-me no primeiro ano de filosofia e vivíamos difíceis momentos após o Concílio Vaticano II. Provenho de uma família humilde, mas com fortes convicções religiosas. Depois de várias tentativas o reitor do Seminário nos comunicou que, embora o desejasse, era impossível fazer do Seminário uma verdadeira comunidade cristã.
Diante desta afirmação eu fiquei me perguntado que caminho deveria seguir, se o da fé simples que meus pais me ensinaram ou aquele da grande cultura cristã, mas que questionava a possibilidade da vivência do Evangelho, pois foi assim que eu entendi a afirmação de nosso reitor. Neste contexto eu esperava um sinal de Deus e Ele se manifestou com prontidão. Fui convidado a participar de uma jornada promovida por um Movimento eclesial que eu não conhecia, o dos focolares. Durante esse encontro várias pessoas partilharam suas experiências bem concretas da vivência da Palavra de Deus. No final do dia, como dizemos, “caiu a ficha”. Foi então que eu disse a mim mesmo: eis aqui o sinal de Deus que eu esperava.
Todas as experiências partilhadas me demonstraram que a Palavra de Deus, realmente, é viva e eficaz de modo que ao ser praticada, gera uma nova vida. A partir deste momento esta luz da Paslavra sempre me acompanha.

Acolher, meditar, praticar

Com São Jerônimo, que celebramos neste mês, desejamos nos nutrir adequadamente da Sagrada Escritura, acolhendo, meditando e praticando tudo o que ela nos diz, para não sermos cristãos subdesenvolvidos. Como nos diz o Papa Bernto XVI em suas catequeses da quarta-feira, desejamos amar a Palavra de Deus, seguindo o exemplo desde grande santo que celebraremos no próximo dia 30.
Não podemos deixar de recordar neste número a experiência de Chiara Lubich e companheiras, vivida num momento em que os fiéis leigos tinham pouco acesso à Bíblia. Correndo para os refúgios antiaéros na cidade de Trento, para proteger-se dos bombardeios durante a segunda guerra mundial, levavam o texto dos Evangelhos. Abrindo-os à luz de uma vela realizaram descobertas extraordinárias sob o impulso de um novo carisma doado à Igreja pelo Espírito Santo. A vivência de uma frase completa da Escritura por mês e a partilha de suas experiências fez nascer uma verdadeira comunidade cristã.
Gerard Rosée, famoso biblista, nos ajudará através de um seu artigo que reproduzimos, a penetrar na importância da Palavra de Deus na vida da Igreja. Do mesmo modo nos ajudará a entender a centralidade da Palavra de Deus na vida cristã, sobretudo, após o Concílio Vaticano II.

Um coração novo

Os profetas Jeremias e Ezequial anunciaram a realização de uma nova aliança entre Deus e seu povo, momento de grande renovação interior pela presença do próprio Espírito de Deus no coração das pessoas. Neste sentido dejamos nos dispor a ouvir a voz do Espírito Santo em nossos corações, para entender o que Deus nos fala hoje, através de sua Palavra.


Padre Antonio Capelesso

Editorial da Revista Pespectivas de Comunhão, Ano XIX, setembro de 2010, nr. 08.

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sábado, 31 de julho de 2010

PdC Agosto 2010



Estamos vivendo um período de acelerada evolução, de modo que a compreensão da sociedade que se vai compondo, é um verdadeiro desafio. Diante de tanto relativismo é necessário redescobrir aqueles valores fundamentais, que no passado vivificaram a convivência social.
Esses valores fundamentais dependem também de uma verdadeira imagem de Deus. O Papa Bento XVI, depois de afirmar que Deus é Amor (cf. 1 Jo 4, 16), diz que essas palavras exprimem com particular clareza o centro da fé cristã: a imagem cristã de Deus, e também a consequente imagem do homem e de seu caminho. (Deus caritas est, 1).
Jesus, sobretudo em seu evento pascal de paixão até ao aniquilamento do abandono e da morte, revela-nos Deus como Amor. Na Trindade, o Pai gera o Filho por amor, “perde-se” Nele, vive Nele, faz-se de certo modo “não-ser” por amor e, justamente por isso Ele é, é Pai. O Filho, enquanto eco do Pai, retorna por amor ao Pai, “perde-se” Nele, vive Nele, faz-se de certo modo “não-ser” por amor e, justamente, fazendo assim é, é Filho; o Espírito Santo, que é o recíproco amor entre Pai e Filho, seu vínculo de unidade, faz-se, Ele também, de certo modo, “não-ser” por amor e justamente por isso é, é o Espírito Santo.
O homem foi criado à imagem de Deus que é amor. Portanto, se nós percorrermos a estrada que nos faz sair de nós mesmos para doar-nos aos outros, então somos, porque nós somos se amamos, se vivermos pelos outros. Não fomos criados como indivíduos que antes se realizam e depois se doam, mas, desde a eternidade, fomos pensados por Deus na relação com os outros. Deste modo, podemos dizer que a relação possui uma prioridade ontológica: a nossa essência como pessoa, não se esgota no nosso ser, mas é definida pelas relações com Deus e com os outros.
Então, estabelecer relacionamentos autênticos com quem encontramos não é somente um gesto de cortesia, este é o nosso ser, a nossa vida. Portanto, eu irei realizar-me estando em relação com os outros: doando e também recebendo. De fato, experimentamos isto a cada dia e psicólogos e pedagogos ressaltam que é o outro que permite à nossa identidade afirmar-se e desenvolver-se. É no vulto do outro que eu me encontro.

A Igreja também é comunhão. Como sabemos, a “eclesiologia de comunhão”, como vocação da Igreja, representa “a idéia central dos documentos do Concílio Vaticano II” (Exortação Apostólica Christifidelis Laici, n. 19). A Igreja tem como vocação, ser “sacramento ou o sinal e instrumento da íntima união com Deus e da unidade de todo o gênero humano” (LG 1). A unidade da Igreja não é uniformidade, mas como na Trindade, seu modelo e forma, é “integração orgânica das legítimas diversidades; é a realidade de muitos membros unidos num só corpo, o único Corpo de Cristo (cf. 1Cor 12,12)” (Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, n. 46).
Duas coisas constituem o fundamento da centralidade da comunhão na Igreja. A primeira brota da essência da mensagem evangélica: a caridade é a essência da Igreja (cf. 1Cor 13,2). A segunda é que, se a caridade tem esta centralidade, não o é por uma opção convencional, mas porque o Amor constitui a própria vida de Deus (cf. l Jo 4,8.16), amor este que faz de Deus não um solitário, mas “família”, uni-trinitária. A Igreja encontra na Trindade as suas raízes, o seu “lugar”, o seu dever ser.


Padre Antonio Capelesso [Editorial Perspectivas de Comunhão - Ano XIX - Agosto de 2010 - n. 07]